Presidente da EBC, Antonia Pellegrino debate desafios do defeso e pergunta "Como dar conta da comunicação pública?

Presidente da EBC, Antonia Pellegrino

Existe um jornalismo que não serve ao governo nem ao mercado. Ele existe independente dos dois. E é este jornalismo – abrigado na comunicação pública - que escapa a diferentes análises e também ao entendimento mais recente do TSE.

Os instrumentos normativos que orientam o período de defeso eleitoral — como manuais, cartilhas e portarias elaborados com fundamento na Lei nº 9.504/1997, com fidelidade à compreensão vigente do tribunal sobre publicidade institucional, têm em vista a atuação de toda Administração direta e indireta, além de agentes públicos - mas não abrange as especificidades da Empresa Brasil de Comunicação, a EBC, cuja missão é entregar ao cidadão o seu direito de acesso à comunicação pública,

O artigo 223 da Constituição Federal de 1988 concede ao Poder Executivo a função de renovar concessão e permissão, bem como a autorização para o serviço de radiodifusão sonora e imagética, em observância ao princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal.

O princípio da complementaridade garante, em tese, o equilíbrio entre os setores de comunicação privada, pública e estatal com funções, finalidades e fundamentos diferenciados. O elemento de diferenciação da radiodifusão pública é a sua independência editorial, posto que cabe a ela adotar comportamento crítico em relação ao governo e ao mercado. Ainda sob a ótica editorial, algumas características são determinantes para a comunicação pública, tais como universalidade e diversidade – gênero dos programas, público alcançado e temas discutidos.

Contudo, no pós-constituinte, houve poucas ações efetivas do Estado para romper com o “desequilíbrio” do modelo de radiodifusão brasileiro. Foi o Ministério da Cultura que, sob o comando do então Ministro Gilberto Gil e do Secretário-Executivo Juca Ferreira em parceria com o ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, propôs e realizou o I Fórum Nacional de TVs Públicas, em 2006, com o objetivo de traçar um panorama da situação das emissoras públicas.

Os documentos produzidos pelo grupo de trabalho forneceram elementos norteadores para um novo modelo de radiodifusão pública, observando as experiências de sistemas públicos adotados em outros países. O acúmulo de forças políticas e sociais engendrado pelo Fórum fez com que a prerrogativa constitucional do princípio da complementaridade fosse posta em movimento, a partir de 2007, durante o final do primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para que, em 2008, fosse então criada a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) por meio da Lei 11.652/08.

Construção da cidadania, fortalecimento da democracia e participação da sociedade são os princípios da Constituição Federal que estabelecem os pilares para a atuação dos canais públicos federais, de acordo com a Lei 11.652/08. "A constituição de um sistema de comunicação com diretrizes voltadas à participação da sociedade civil e à inclusão social, entre outros objetivos, torna-se, dessa forma, um direito adquirido a ser garantido pelo Estado" (Carvalho; Buriti, 2012; Pieranti, 2020).

O arranjo legal possível diante da correlação de forças, à época, materializou a EBC como empresa de comunicação pública, mas também, como prestadora de serviços de comunicação do governo federal. A nova estatal foi fundada, portanto, para operar as emissoras de rádio e televisão federais, com objetivo de formar um “sistema público de comunicação” que complementasse o “sistema privado”, mas havia em seu bojo todo o sistema governamental. A solução fez com que a Empresa Brasil de Comunicação já nascesse tendo de dar conta de dois serviços de comunicação previstos na Constituição, a pública e a governamental.

Quase 19 anos depois, a confusão entre comunicação pública e governamental prossegue. No dia 04 de Julho de 2026 começou o período de defeso eleitoral no Brasil. Trata-se do momento que antecede as eleições, durante o qual a publicidade institucional está vedada para todos os órgãos da Administração Pública, com o intuito de produzir igualdade de oportunidades entre candidatas e candidatos.

A vedação à “publicidade institucional” nos três meses que antecedem o pleito é tratada como regra objetiva, aplicável a qualquer órgão ou entidade da administração direta ou indireta que identifique autoridades, governos ou administrações em disputa.

No entanto, apesar da EBC ser uma empresa estatal dependente, supervisionada pela Secretária de Comunicação Social da Presidência da República e financiada pelo Governo Federal, ela não se encaixa plenamente no entendimento. Há algo que escapa: a comunicação pública.

Comunicação pública não é jornalismo feito pelo Estado para falar bem do governo. Como já foi dito, é exatamente o contrário: é o jornalismo que existe apesar do governo e apesar do mercado. A ideia nasce do reconhecimento de que nem toda informação de interesse coletivo encontra espaço espontâneo na lógica comercial da mídia privada — que responde a audiência e ao anunciante — nem deveria ser produzida como propaganda de quem está no poder.

A pergunta, portanto, que atravessa a comunicação pública é: a serviço de quem a informação é produzida? Ora, a serviço do cidadão - e isso não é pouco em um ambiente digital inundado por mentiras e desinformação. O compromisso da comunicação pública é com a cidadania, a pluralidade e o fortalecimento democrático, com independência editorial inclusive em relação ao governo que a financia e ao seu órgão supervisor.

Nesse contexto, o desafio consiste em assegurar o equilíbrio entre a proteção da igualdade eleitoral e a preservação da liberdade de informação jornalística, especialmente no âmbito de uma empresa pública criada para prestar serviço de comunicação pública.

Não se busca afastar aqui a aplicação da Lei nº 9.504/1997, tampouco flexibilizar as restrições próprias do período eleitoral, mas garantir sua adequada interpretação à luz da atividade-fim da EBC, de modo a compatibilizar a necessária proteção da lisura do processo eleitoral com a continuidade da prestação de um serviço público essencial à sociedade.

Portanto, é preciso uma leitura própria a respeito da EBC. A jurisprudência do TSE já reconhece uma categoria diferente dentro dessa mesma regra geral — notícia com “conteúdo meramente informativo”, publicada por portal de órgão público, não configura publicidade institucional vedada; entrevista jornalística que relata atividade de governo, sem promoção pessoal, também não. Porém, em sua aplicação prática, os elementos que diferenciam informação jornalística de propaganda de gestão são sutis.

Diante da regra objetiva e da ausência de uma orientação própria ao jornalismo público, foi feita na Agência Brasil a opção pelo arquivamento de seu acervo dos últimos 3 anos e meio, durante o período do defeso — não porque os textos já publicados sejam propaganda de gestão, mas porque checar um a um, mais de 180 mil matérias, em busca de menções a autoridades em disputa ou termos que pudessem ser considerados publicidade, é humanamente inviável, além do que, a empresa não dispõe de ferramenta confiável para fazer essa verificação sutil em escala.

E é aqui que está a lacuna, mais do que o erro: falta à regra geral um capítulo específico para a radiodifusão pública. Aplicar à EBC o mesmo teste que se aplica à assessoria de imprensa de um ministério — na ausência de uma orientação que reconheça essa diferença de natureza — acaba, na prática, tratando como equivalentes duas coisas que a própria Constituição concebeu como opostas.

Diante da falta de clareza sobre o papel da comunicação pública, não coube à EBC um ato de desobediência civil na chegada do defeso, mas cabe à empresa reivindicar sua especificidade através de um pedido de autorização judicial no TSE para que a Agência Brasil possa desarquivar milhares de matérias ocultadas.

Em um ambiente de desinformação e proliferação de mentiras, criar oportunidades iguais entre candidatas e candidatos, também é permitir que os cidadãos possam fazer suas escolhas baseado em informações verificadas, confiáveis e de interesse público.

Portanto, o paradoxo imposto pela legislação eleitoral fica evidente. Quanto mais a sociedade precisa de informação confiável durante uma eleição, mais difícil se torna garantir que a comunicação pública continue exercendo plenamente sua missão. Resolver esse impasse interessa à EBC, mas interessa sobretudo ao direito dos cidadãos e cidadãs à informação.

LEIA! Marcos Verlaine, do DIAP, escreve que "A IA ainda não destrói empregos. Apenas começou pelos jovens"


Marcos Verlaine, do DIAP*

Este é o primeiro aviso da revolução silenciosa que caminha a passos largos sobre os empregos. Primeiro dificulta o ingresso dos jovens no mercado de trabalho. Trata-se de pauta que o movimento sindical precisa debruçar-se e pedir estudos ao Dieese, Ipea e Unicamp/Cesit (Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho).

Há uma velha máxima da economia segundo a qual as grandes transformações não chegam fazendo barulho. Essas começam discretamente, alterando margens, deslocando prioridades e modificando comportamentos até que, de repente, tudo mudou. Atenção para aquilo que interessa às futuras gerações.

É exatamente isso que revela o mais recente relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) sobre o mercado de trabalho1.

Os números parecem tranquilizadores. O desemprego permanece em níveis historicamente baixos entre os 38 países que compõem a organização. O emprego continua crescendo. Não há evidências, até agora, de substituição em massa de trabalhadores pela IA.

Mas essa é apenas a superfície.

A verdadeira notícia está escondida nas entrelinhas do relatório: a entrada dos jovens no mercado de trabalho tornou-se significativamente mais difícil, e a própria OCDE reconhece que os avanços recentes da IA generativa2 provavelmente já fazem parte dessa explicação.

É o primeiro sintoma de doença que ainda está em incubação.

A porta de entrada começa a desaparecer

Toda revolução tecnológica modifica a forma de produzir. A diferença é que, desta vez, a tecnologia não está substituindo apenas força física ou tarefas repetitivas. Isso começa justamente pelas atividades tradicionalmente destinadas aos profissionais iniciantes.

Durante décadas, empresas contrataram jovens para executar pesquisas, produzir textos básicos, organizar documentos, atender clientes, elaborar planilhas, programar códigos simples, fazer traduções ou realizar análises preliminares.

Hoje, boa parte dessas tarefas pode ser realizada, em segundos, por sistemas de IA.

O resultado é perverso. Se antes essas funções serviam como escola prática para formar profissionais experientes, agora muitas simplesmente deixam de existir.

Sem o primeiro emprego, não há experiência. Sem experiência, não há progressão profissional. Forma-se círculo de exclusão que ameaça uma geração inteira.

Falsa sensação de segurança

Há quem veja o relatório da OCDE como demonstração de que os temores em torno da IA eram exagerados. É leitura apressada. Nenhuma grande transformação econômica produz todos os seus efeitos simultaneamente.

A eletrificação levou décadas para alterar profundamente a indústria. A informatização começou eliminando datilógrafos antes de transformar praticamente todos os setores econômicos.

A internet não destruiu empregos de imediato, mas redefiniu completamente o comércio, os serviços, a comunicação e a produção de conhecimento.

Com a inteligência artificial ocorre o mesmo. Primeiro aumenta a produtividade. Depois reorganiza processos. Em seguida reduz contratações. Só então substitui ocupações inteiras. Estamos apenas no início desse processo.

Diferença entre Europa e AL

Existe, porém, variável decisiva que costuma passar despercebida. Os países da OCDE possuem mercados de trabalho muito mais estruturados que os latino-americanos.

Dispõem de sistemas robustos de qualificação profissional, proteção social, negociação coletiva consolidada, maior capacidade de investimento em educação tecnológica e empresas com elevado nível de inovação.

Mesmo assim, os jovens já encontram mais dificuldades para ingressar no mercado.

A pergunta inevitável é: o que acontecerá quando essa mesma transformação atingir economias marcadas pela informalidade, pela baixa escolarização, pela precarização do trabalho e pela reduzida capacidade de requalificação profissional?

Na América Latina, a IA tende a encontrar terreno muito mais frágil. Milhões de trabalhadores sequer concluíram o ensino médio. Grande parte da população economicamente ativa sobrevive em ocupações informais.

As pequenas empresas possuem baixa capacidade tecnológica. Os sistemas públicos de qualificação profissional permanecem insuficientes. Em ambiente assim, a substituição de funções tende a produzir efeitos sociais muito mais intensos.

Risco da nova
exclusão tecnológica

Existe outro aspecto pouco debatido. A IA não elimina apenas postos de trabalho. Altera profundamente a distribuição das oportunidades. Quem domina tecnologia passa a produzir mais, ganhar mais e disputar vagas em melhores condições.

Quem não domina fica progressivamente deslocado. A desigualdade deixa de ser apenas econômica. Transforma-se em desigualdade tecnológica. E essa talvez seja a face mais preocupante da nova economia.

Não se trata apenas de perder empregos. Trata-se de perder capacidade de competir.

Desafio para
sindicatos e governos

Essa transformação impõe enorme desafio ao movimento sindical, às universidades e ao Estado. A agenda trabalhista do século 21, que está apenas no segundo decênio, já não pode limitar-se ao debate sobre salários, jornada ou direitos tradicionais. Embora todos continuem essenciais.

Será necessário incorporar nova dimensão: o direito permanente à requalificação profissional.

Isso significa investir massivamente em educação digital, formação continuada, alfabetização em IA e políticas públicas capazes de preparar trabalhadores para funções que ainda sequer existem.

Também será indispensável fortalecer a negociação coletiva para disciplinar a adoção da IA nas empresas, estabelecendo limites para substituições indiscriminadas, mecanismos de transparência algorítmica, proteção de dados dos trabalhadores e programas obrigatórios de requalificação sempre que novas tecnologias forem implementadas.

Sem esse equilíbrio, a inovação tende a ampliar a produtividade das empresas enquanto concentra renda e distribui insegurança.

O futuro começou e cobra antecipação

O relatório da OCDE não anuncia catástrofe. Mas tampouco autoriza a complacência.

Os primeiros sinais da IA sobre o emprego já apareceram exatamente onde as transformações costumam começar: na entrada do mercado de trabalho. Os jovens são os primeiros afetados.

Depois virão profissionais administrativos, analistas, técnicos, trabalhadores de serviços e, gradualmente, ocupações cada vez mais qualificadas.

A história econômica ensina que nenhuma revolução tecnológica foi interrompida por resistência política. Mas também demonstra que seus efeitos sociais dependem das escolhas feitas pelos governos e pela sociedade.

A inteligência artificial pode inaugurar era de prosperidade compartilhada ou aprofundar desigualdades inéditas. Na Europa, essa ainda produz apenas os primeiros sintomas.

Na América Latina, se governos, empresas e trabalhadores não começarem desde já a construir políticas de proteção, qualificação e regulação, a doença poderá chegar muito antes da cura.

(*) Jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP

Portal DIAP
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1 https://www.oecd.org/en/publications/oecd-employment-outlook-2026_7e710f54-en.html - acesso em 11.6.26

2 IA generativa é um tipo de algoritmo projetado para criar conteúdos originais: textos, imagens, vídeos, áudios e códigos. Ao contrário das IA tradicionais, que apenas analisam dados, essa usa aprendizado de máquina para gerar resultados inéditos baseados nos padrões que aprendeu durante o treiname

Nova CTB Maranhão recebe Secretário-Geral da CTB Nacional, fortalece organização sindical e debate fim da escala 6x1

Secretário Geral Nacional da CTB Ronalfo Leite
e o Presidente da Nova CTB Maranhão Professor Fábio Orlan alinham diretrizes

A Nova CTB Maranhão recebeu a visita do secretário-geral da CTB Nacional, Ronaldo Leite, em um importante momento de diálogo e fortalecimento da atuação da Central no estado. O encontro discutiu o alinhamento das ações locais às diretrizes nacionais e ampliação da mobilização em defesa dos direitos da classe trabalhadora.

Entre os principais temas debatidos esteve a campanha pelo fim da escala 6x1, pauta que vem ganhando força em todo o país e que busca garantir melhores condições de trabalho, mais qualidade de vida e valorização dos trabalhadores.


A reunião também reforçou o compromisso da Nova CTB Maranhão com a unidade do movimento sindical e com a construção de uma atuação cada vez mais articulada às orientações da CTB Nacional, fortalecendo as lutas em defesa do emprego, dos direitos trabalhistas e da democracia.

Para o presidente da Nova CTB Maranhão, Fábio Orlan, o encontro representa um passo importante para consolidar a atuação da Nova CTB.

"Receber o companheiro Ronaldo Leite é motivo de grande satisfação. Esse diálogo fortalece a nossa organização e reafirma o compromisso da Nova CTB Maranhão com as diretrizes da CTB Nacional. Saímos deste encontro ainda mais unidos para ampliar a mobilização dos trabalhadores maranhenses e defender pautas fundamentais, como o fim da escala 6x1, que representa mais dignidade, saúde e qualidade de vida para a classe trabalhadora", pontuou Fábio Orlan.

Festival da Comunicação Sindical e Popular será dia 24 de Julho, em São Paulo, e homenageia comunicador popular Vito Gianotti

Entusiasta da imprensa operária e sindical, onde atuou grande parte da vida, Vito ampliou seus ideais com a fundação do Núcleo Piratininga de Comunicação.


“Não há tema mais central em um momento de domínio das redes sociais pela direita, aliança de empresários com a extrema direita para retirar direitos dos trabalhadores e boa parte da população se voltando contra os ideais humanistas”. 

A afirmação foi feita pela coordenadora do Núcleo Piratininga de Comunicação, a jornalista Claudia Santiago, numa referência ao V Festival da Comunicação Sindical e Popular, no dia 24 de julho, na praça da Cinelândia, organizado pelo NPC.

Claudia lembrou que a data foi instituída como Dia Municipal da Comunicação Popular há 10 anos em homenagem ao comunicador popular Vito Giannotti, falecido em 24 de julho de 2015. Entusiasta da imprensa operária e sindical, onde atuou grande parte da vida, ampliou seus ideais com a fundação do Núcleo Piratininga de Comunicação. O tema de 2026 é “A comunicação popular e sindical na batalha das ideias”, um tema fundamental, como destacou Claudia Santiago em entrevista recente ao Brasil de Fato.

Participação do movimento sindical – Entre as barracas confirmadas estão a da Fundação Rosa Luxemburgo, as dos sindicatos dos professores das escolas privadas (Sinpro), trabalhadores das telecomunicações (Sinttel), servidores do judiciário federal (Sisejufe), profissionais de educação do estado (Sepe), técnico-administrativos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Sintufrj), trabalhadores do ramo financeiro (Federa), trabalhadores da indústria de frios (Sintrafrio), trabalhadores no comércio de minérios e derivados de petróleo (Sitramico), engenheiros (Senge). Do coletivo Brasil de Comunicação Social (Intervozes) e da organização BEM TV.

Entre os movimentos populares estarão o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Movimento Unidos dos Camelôs (Muca), Movimento das Comunidades Populares (MCP), Central dos Movimentos Populares (CMP) e barracas da comunicação alternativa e da Comunicação Popular.

“E atenção: quem quiser enviar seus materiais para serem expostos na barraca do NPC, só falar com a gente!”, avisa Claudia.

Trajetória – Ex-metalúrgico, Vito foi autor de 30 livros, como “O que é jornalismo sindical”, “Muralhas da Linguagem” e “História das Lutas dos Trabalhadores no Brasil”. Seu legado faz com que neste dia 24 se comemore no Rio de Janeiro o Dia Municipal da Comunicação Popular.

Vito Giannotti nasceu no Comune de Lucca, na Itália, em 1943. Chegou no Brasil com um grupo de padres operários dissidentes da Igreja Católica. Passou pela França e por Israel antes do Brasil, que elegeu como seu novo lar.

Em Vitória, no Espírito Santo, trabalhou como pescador. Depois, sua paixão pela luta dos trabalhadores o levou para São Paulo, onde se tornou metalúrgico e militante dentro das fábricas. Crítico da estrutura sindical de origem varguista, participou ativamente da Oposição Sindical Metalúrgica, que contrariava o “comando pelego” de interventores da ditadura militar.

Para que as propostas sobre um novo sindicalismo e sobre a luta de classes fossem compreendidas e assimiladas, se tornou um especialista da comunicação. Através de boletins, panfletos e jornais operários, fazia com que as informações chegassem aos trabalhadores, mas sem abandonar o olho no olho.

Torneiro mecânico – Em São Paulo, depois de estudar tornearia, começou a trabalhar em fábricas como ajudante geral, para depois virar torneiro de fato, profissão que exerceu por 25 anos. Em 1974, foi preso pelo regime militar com dezenas de outros metalúrgicos, devidos suas atuações no sindicato, nas assembleias e na distribuição dos boletins. Após a prisão, ele e os demais permaneceram na mira do DOPS, o que desmobilizou temporariamente a Oposição Sindical.

Em 1978, Vito denuncia as fraudes na eleição do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, então dominado pela estrutura “pelega” que se subordinava à ditadura – conforme mostra o documentário “Braços Cruzados, Máquinas Paradas“, de Sérgio Toledo e Roberto Gervitz.

No ano seguinte, a Oposição vira modelo de sindicalismo para o país, mudando a estrutura de organização dos trabalhadores e contribuindo para as primeiras grandes greves gerais da categoria.

Imprensa Operária – Além de figura importante nas fábricas, Vito se interessou pela imprensa operária, sendo responsável pela produção e publicação de jornais como o Luta Operária, extinto após o Ato Institucional 5 (AI-5) — que, entre outros efeitos, oficializou a censura. Na clandestinidade, as publicações, com outros nomes, continuaram a circular, sendo entregues nas portas de fábricas cedinho, antes da entrada dos trabalhadores.

De 1972 à 1974, a intensificação da repressão fez com que as publicações fossem extintas, até retornarem com o jornal Luta Sindical, que durou de 1976 à 1984. Os jornais tinham a dupla função de formar e informar.

Como intelectual e leitor de Marx, Bordiga, Gramsci, Rosa Luxemburgo, Trotsky e Lênin, Vito levava esses autores para discussões em reuniões de greves. Transformou publicações em formato de “caderninhos”, que cabiam no bolso do uniforme dos operários, muitas vezes semi-analfabetos. Assim, ajudou a popularizar o marxismo entre os trabalhadores.

Dirigente da CUT – Após a experiência com a comunicação operária, Vito foi diretor da Central Única dos Trabalhadores (CUT) em São Paulo e, em 1992, fundou o Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), no Rio de Janeiro. Lá, mergulhou no que foi a sua paixão desde o início, e passou também ensinar a comunicação popular.

A ideia inicial foi de sua companheira, Claudia Santiago. Assessora da CUT no Rio de Janeiro. Ela era apaixonada pela comunicação com os trabalhadores e responsável por boletins diários, jornais semanais e mensais, além de cursos de formação.

A grande marca de Vito no Núcleo, segundo Claudia, foi o curso de história das lutas dos trabalhadores. Inicialmente, foi idealizado por ela e desenvolvido para jornalistas de sindicatos, visando a necessidade de se entender a história do Brasil. “Tudo o que eu não sabia, eu coloquei no sumário do curso. Ele desenvolveu o curso em cima das minhas necessidades”.

Fonte: *Com informações do Núcleo Piratininga de Comunicação e do Brasil e Fato.

SINPROESEMMA tem novo presidente com a desincompatibilização de Raimundo Oliveira para disputar vaga de Deputado Federal


Raimundo Oliveira e Fábio Orlan
O presidente do Sinproesemma, Raimundo Oliveira, oficializou na terça-feira (2) sua desincompatibilização/Licença do cargo de presidente da entidade para dedicar-se ao projeto político partidário de pré-candidatura a Deputado Federal. A medida permite que o dirigente concentre esforços na construção de sua pré-campanha.

Com a licença temporária de Raimundo Oliveira, a presidência do Sinproesemma passa a ser exercida pelo 1º vice-presidente, professor Fábio Orlan, que permanecerá à frente da entidade até após as eleições no mês de outubro, garantindo a continuidade das ações sindicais, das lutas da categoria e da defesa dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras em educação do Maranhão.


Ao anunciar sua desincompatibilização/Licença Raimundo Oliveira destacou que a decisão representa um novo desafio em sua trajetória de luta tanto em defesa da educação pública e dos educadores assim como da sociedade maranhense.

“Ao longo dos últimos anos construímos uma história de muitas conquistas para a educação e para os trabalhadores em educação. Agora, assumo o desafio de ampliar essa luta, buscando representar os educadores e o povo maranhense na Câmara Federal. Me licencio temporariamente da presidência com a tranquilidade de saber que o Sinproesemma continuará firme, forte e bem conduzido por uma diretoria comprometida com os trabalhadores em educação do Maranhão”, afirmou Raimundo Oliveira.

O presidente em exercício, Fábio Orlan, ressaltou a responsabilidade de assumir a condução da entidade neste período e reafirmou o compromisso de dar continuidade ao trabalho desenvolvido pelo Sinproesemma.

“Recebo essa missão com muito senso de responsabilidade e compromisso. O Sinproesemma seguirá atuando com firmeza na defesa dos direitos dos trabalhadores em educação como sempre fez, fortalecendo as lutas da categoria e buscando o diálogo com as gestões públicas a fim da valorização dos educadores e melhorias na educação pública do nosso estado. Seguiremos com o nosso trabalho construído coletivamente, preservando a unidade e a força do nosso sindicato mais sem perder o projeto político que é necessário para termos representatividade nas casas legislativas que são espaços de decisões importantes para viabilidade de políticas públicas necessárias não só a nossa categoria como a todo povo maranhense”, declarou o presidente em exercício Fábio Orlan.

Fonte: ASCOM -SINPROESEMMA

Presidente da NOVA CTB MARANHÃO Fábio Orlan destaca luta pelo fim da jornafa 6 X 1

Professor Fábio Orlan

O avanço do debate sobre o fim da escala 6x1 no Brasil representa uma importante conquista para a classe trabalhadora e reacende a esperança por relações de trabalho mais humanas e equilibradas no país. A proposta, que ganha força nacionalmente, é defendida por centrais sindicais e movimentos sociais como uma medida capaz de melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiras.

Para o presidente da CTB Maranhão e primeiro vice-presidente do Sinproesemma, professor Fábio Orlã, o momento é histórico e simboliza um novo passo na valorização do trabalho no Brasil. “Estamos acompanhando esse debate com muita atenção e esperança. O fim da jornada 6x1 representa mais dignidade, mais convivência familiar, mais saúde física e mental para milhões de trabalhadores e trabalhadoras. O Brasil dá um passo importante rumo a uma sociedade mais justa”, afirmou.

Fábio Orlã destacou ainda que a luta pela redução das jornadas exaustivas é antiga no movimento sindical e precisa continuar avançando. Segundo ele, a construção de um país desenvolvido passa necessariamente pela valorização humana e pelo respeito aos direitos da classe trabalhadora.

Opinião: Para que Sindicatos dos Educador


Por Professor João Monlevade

Temos no Brasil cerca de 2 milhões de professores(as) trabalhando nas escolas públicas de educação básica. Há outros 1,6 milhões de educadores nas escolas, em cargos não docentes: merendeiras, porteiros, vigias e seguranças, agentes de conservação e limpeza, escriturários, que trabalham efetivamente em contato direto ou indireto com os estudantes, nas manhãs, tardes e noites de trezentos dias e noites letivos, pelo menos.

Todos estes 3,6 milhões de trabalhadores assumem suas funções por meio de concursos públicos de provas e títulos para cargos efetivos nas redes federal, estaduais, municipais e do Distrito Federal, ou não-efetivos, ou seja, temporários. Os professores são enquadrados em carreiras conforme seus diplomas no curso Normal ou de Pedagogia, para lecionar todo o currículo na educação infantil, para as crianças de um a cinco anos na educação infantil e pré-escola, e para as de seis a dez anos para os primeiros cinco anos de ensino fundamental. Já do sexto ao nono ano desta mesma etapa e do primeiro ao último ano do ensino médio, os professores se responsabilizam pelas matérias (ou disciplinas) para as quais foram formados em Licenciaturas Específicas (Português, Língua Estrangeira, Matemática, Biologia, História, Geografia, Física, Química e outras específicas dos currículos de cursos médios profissionais). Nas redes públicas, por quarenta horas semanais de trabalho, conforme as legislações estaduais ou municipais, são-lhes pagos salários iguais ou acima do Piso Nacional Salarial do Magistério, em dezembro de 2026 no valor de R$ 5.130,63 e, no caso de cargas horárias semanais menores, serão pagas remunerações mínimas proporcionais.

Já os educadores não docentes em exercício nas escolas públicas de ensino fundamental e médio estão no aguardo da aprovação e sanção do Projeto de Lei que fixa seus salários pelas mesmas 40 hs semanais em 75% do valor do Piso do Magistério. Atualmente, R$ 3.847,97.

Duas observações para justificar a sindicalização dos trabalhadores e dos profissionais da educação. Primeira: mesmo com lutas de meio século, o Piso Salarial dos Professores não atinge o Salário Mínimo “Necessário” do DIEESE, calculado pelos preços médios dos bens e serviços necessários para a vida digna dos cidadãos e cidadãs do Brasil: R$ 7.425,99 , para trabalhador em família de dois adultos e duas crianças. Segunda: os funcionários da educação, citados no parágrafo primeiro do presente texto, com exceção dos que trabalham nas secretarias das escolas, cerca de um quarto dos 1,6 milhões acima citados, ganham salário mínimo e poucos têm formação específica e carreira profissional.

Daí o direito legal e a necessidade urgente de todos contarem com um sindicato, se possível unificado para todos os trabalhadores em escolas e profissionais da educação, se detentores de diplomas técnicos ou tecnológicos em suas matérias ou áreas de atuação. E não só terem seu sindicato mas estarem neles filiados, pois a luta pela valorização salarial e profissional só é ganha se o sindicato tiver força social e política acima da dos trabalhadores que representa, verdadeiramente vinculados, contribuindo financeiramente para suas ações de todas as naturezas no âmbito nacional, estadual e municipal.

Finalmente, uma sugestão: em municípios com população menor de 10 mil habitantes, que são muitos no Brasil, aconselha-se que se agrupem em sindicatos conjuntos de vários municípios, por duas razões: para somarem receitas necessárias às ações de seu diretores e para unir forças maiores para obter ganhos salariais e sociais que dependam de “volume político” das reivindicações. Boas lutas e vitórias para todos e todas educadores(as)!

A maior vitória dos trabalhadores desde a Constituição de 1988


Por Marcoa Verlaine

O discurso da catástrofe colapsou e a Câmara dos Deputados aprovou, em dois turnos, a PEC 221/19 (com a PEC 8/25 anexada) — o que representa uma das mais importantes derrotas políticas, ideológicas e simbólicas do conservadorismo econômico brasileiro nas últimas décadas.
Com 472 votos a 22 no primeiro turno e 461 a 19 no segundo, a Câmara dos Deputados produziu fato histórico: reconheceu, ainda que tardiamente, que a vida humana vale mais que a lógica predatória da superexploração do trabalho.

Não se trata apenas de reduzir a jornada semanal de 44 para 40 horas. Nem de apenas substituir a escala brutal de 6×1 pela escala 5×2. O que está em jogo é algo muito mais profundo: a disputa entre dois projetos de sociedade.

De um lado, o Brasil do trabalho digno, do direito ao descanso, à convivência familiar, ao lazer, à saúde física e mental. Do outro, o Brasil do lucro acima de qualquer limite, da exaustão normalizada e da transformação do trabalhador em mera peça descartável da engrenagem econômica.

A dimensão acachapante da votação desmonta a narrativa sustentada durante décadas pelo grande empresariado, pelo mercado financeiro e pela direita neoliberal: a de que qualquer avanço social levaria inevitavelmente ao caos econômico.

Foi assim contra as férias, contra o 13º salário, contra a licença-maternidade, contra a CLT, contra a valorização do salário mínimo. E voltou a ser assim no debate sobre a redução da jornada.

Mais uma vez, estavam errados.

Mentira histórica da “quebra da economia”

O argumento empresarial repetido à exaustão — de que a economia quebraria — foi derrotado não apenas no plenário, mas também nas ruas, nas redes e na consciência popular.

O País inteiro assistiu ao desespero de setores patronais tentando convencer a sociedade de que conceder dois dias de descanso semanal aos trabalhadores seria séria ameaça à sobrevivência nacional.

É uma tese não apenas falsa, mas obscena.

O Brasil já convive, há décadas, com jornadas excessivas, baixos salários e altíssima produtividade baseada em sobrecarga humana. O modelo da escala 6×1, especialmente no comércio e nos serviços, produz adoecimento, destruição da convivência familiar, depressão, ansiedade, acidentes de trabalho e esgotamento permanente.

Milhões de trabalhadores vivem sem tempo para estudar, descansar, cuidar dos filhos ou simplesmente existir fora do ambiente laboral.

O que a PEC faz é reconhecer a realidade civilizatória já adotada em diversas economias centrais do capitalismo contemporâneo: produtividade não depende de exaustão. Ao contrário. Trabalhadores menos sobrecarregados produzem mais, adoecem menos, consomem mais e movimentam melhor a economia.

A própria transição escalonada prevista no texto — redução para 42 horas nos primeiros 60 dias e chegada às 40 horas após um ano — desmonta a retórica do “choque econômico”. O texto foi desenhado exatamente para permitir adaptação gradual das empresas e reorganização dos setores produtivos.

Além disso, a preservação integral dos salários impede que a medida se transforme em precarização disfarçada. Trata-se de redistribuir tempo de vida sem retirar renda.

Derrota política da extrema direita

A votação também expôs o isolamento político do discurso neoliberal no Parlamento. Os placares revelam algo raríssimo na política brasileira contemporânea: formação de ampla maioria social e parlamentar em torno de um direito trabalhista.

A extrema direita tentou reeditar o velho catecismo do “empreendedorismo sacrificial”, segundo o qual trabalhadores deveriam aceitar jornadas desumanas em nome da “competitividade”. Não funcionou. Porque a realidade concreta venceu a propaganda ideológica do capital, do mercado, da direita e da extrema direita.

O Brasil real sabe o que significa trabalhar seis dias por semana para sobreviver. Sabe o que significa sair de casa antes do amanhecer e voltar tarde da noite sem sequer conseguir conviver com a família. Sabe o que significa viver permanentemente cansado.

Por isso, a pressão popular foi decisiva. A vitória não nasceu apenas dentro da Câmara; foi construída nas mobilizações sindicais, nas redes digitais, nas audiências públicas, nos movimentos sociais e no crescente sentimento coletivo de que o modelo atual se tornou insustentável.

Novo pacto social do trabalho

A aprovação da PEC não resolve, por si só, todas as deformações do mercado de trabalho brasileiro. A pejotização predatória, a informalidade estrutural, os aplicativos sem direitos e a precarização continuam sendo desafios centrais.

Mas a mudança constitucional inaugura novo horizonte político. Pela primeira vez em muitos anos, o debate público deixou de girar apenas em torno de “flexibilizar”, “modernizar” e retirar direitos. Voltou-se a falar em ampliar a proteção social e melhorar a qualidade de vida da maioria da população. Isso tem enorme significado histórico.

Desde os anos 1990, consolidou-se no Brasil a ideia de que qualquer avanço trabalhista seria incompatível com o crescimento econômico. A aprovação da PEC implode esse dogma. E o faz justamente num momento em que o mundo inteiro debate redução de jornada, automação, inteligência artificial e redistribuição do tempo de trabalho.

O Senado agora terá diante de si não apenas uma proposta legislativa, mas decisão histórica sobre o modelo de País que deseja consolidar. E dificilmente ignorará a força política, social e simbólica da votação da Câmara.

Brasil possível

A redução da jornada é, acima de tudo, afirmação de humanidade. O trabalhador não pode existir apenas para trabalhar. Nenhuma sociedade minimamente democrática pode considerar normal que milhões de pessoas vivam aprisionadas numa rotina contínua de desgaste físico e mental.

A aprovação da PEC afirma algo elementar, mas profundamente revolucionário para a lógica do capitalismo periférico brasileiro: a vida não pode ser organizada exclusivamente em função do trabalho exaustivo para gerar lucro para poucos.

A Câmara compreendeu isso. O País também. E talvez seja exatamente por isso que a vitória tenha sido tão gigantesca.

Mais de 100 anos da mesma resistência: A elite empresarial brasileira e a luta histórica pela redução da jornada de trabalho:



Por: Antônio Augusto de Queiroz (*

A história do movimento sindical no Brasil é, antes de tudo, uma crônica da resistência. Desde os primórdios da organização da classe trabalhadora, no final do século XIX e início do século XX, a relação entre capital e trabalho no país foi marcada por uma profunda assimetria de poder. Enquanto os trabalhadores lutavam por condições mínimas de dignidade – como a limitação de jornadas exaustivas de até 16 horas diárias e a garantia de um descanso mínimo – parcela da elite empresarial brasileira sempre respondeu com um conservadorismo feroz, travestido de argumentos paternalistas e econômicos. Ao analisarmos o debate contemporâneo sobre o fim da escala 6×1 ou a redução da jornada para 40 horas semanais, somos obrigados a reconhecer um fato desconcertante: os argumentos patronais de hoje são, mutatis mutandis, os mesmos utilizados há mais de um século contra a concessão de férias de 15 dias.

A resistência à outorga de direitos sociais não é um fenômeno de conjuntura; é uma constante estrutural do capitalismo periférico brasileiro. Este artigo tem por objetivo demonstrar, por meio de um resgate histórico documental, que parcela da elite empresarial não evoluiu em sua essência argumentativa. O mesmo desprezo de classe que motivou o manifesto contra as férias de 15 dias, em 1926, ressurge hoje contra a redução da jornada, provando que, no que tange à distribuição do tempo e da renda, boa parte do empresariado brasileiro permanece ancorado em pressupostos arcaicos e autoritários.

1. A gênese da luta: Das 16 horas às férias de 15 dias

Para compreendermos a dimensão do retrocesso argumentativo, é necessário revisitarmos o contexto da Primeira República (1889-1930). Foi nesse período em que o movimento sindical, fortemente influenciado por imigrantes anarquistas e socialistas, deu seus primeiros passos efetivos no Brasil. As condições de trabalho eram sub-humanas. A jornada de até 16 horas era a regra nos centros urbanos emergentes, e não havia qualquer previsão de descanso semanal remunerado, férias ou proteção contra acidentes. A lógica vigente era a da exploração máxima da força de trabalho, tratada como mercadoria descartável.

Foi nesse caldo de cultura que surgiu a primeira grande vitória legal dos trabalhadores: o Decreto Legislativo nº 4.982, de 1925[1], instituindo as férias de 15 dias. Para os trabalhadores, exauridos física e mentalmente, tratava-se de um alento; para os patrões, um atentado à propriedade e à disciplina fabril.

A reação não tardou. Em 1926, sob o governo Arthur Bernardes, as associações empresariais paulistas – embrião do que viria a ser uma das entidades mais poderosas do país, a FIESP – enviaram um memorial ao presidente da República pleiteando a revogação da lei. O documento é uma peça antológica da sociologia patronal brasileira, e merece ser citado na íntegra (conforme registrado por Luiz Werneck Vianna, em Liberalismo e Sindicato no Brasil):

“que fará um trabalhador braçal durante 15 dias de ócio? Ele não tem o culto do lar, como ocorre nos países de padrão de vida elevado. Para nosso proletariado, para o geral de nosso povo, o lar é um acampamento — sem conforto e sem doçura. O lar não pode prendê?lo e ele procurará matar as suas longas horas de inação nas ruas. A rua provoca com freqüência o desabrochar de vícios latentes e não vamos insistir nos perigos que ela representa para o trabalhador inativo, inculto, presa fácil dos instintos subalternos que sempre dormem na alma humana, mas que o trabalho jamais desperta!”

2. A elite imutável: O argumento do “ócio perigoso” ontem e hoje

A citação acima é mais do que um registro histórico; é a chave hermenêutica para entendermos a mentalidade de parcela patronal brasileira. Observemos os elementos dessa fala, datada de 1926:Paternalismo autoritário: O trabalhador é tratado como um menor incapaz. Ele não tem “culto do lar”; é um ser primitivo que, sem supervisão e trabalho, regride à barbárie.
Criminalização da pobreza: A ausência de trabalho é imediatamente associada ao vício, à rua e à desordem. O descanso não é visto como direito ou necessidade fisiológica, mas como uma licença para o pecado.
Justificativa biológica da exploração: O trabalho é apresentado como a única força moral capaz de domesticar os “instintos subalternos”.

Avançamos cem anos. O cenário mudou; a tecnologia, a legislação e a composição do parlamento, também. Contudo, o discurso de setores do empresariado contra a redução da jornada de 44 horas para 40 horas semanais, ou contra o fim da escala 6×1 (seis dias de trabalho por um de descanso), é uma reprodução quase textual dessa lógica.

Ao se manifestarem contra a proposta da escala 5×2 (cinco dias trabalhados por dois de descanso) ou mesmo contra a consolidação da semana de 40 horas, líderes empresariais e economistas liberais recorrem aos mesmos expedientes de 1926. Atualmente, os argumentos se revestem de um verniz técnico – “perda de produtividade”, “aumento de custos”, “impacto na inflação” – mas a essência ideológica permanece a mesma: o medo do trabalhador livre, com tempo para a política, o estudo e o lazer.

Parcela da elite empresarial demonstra, explicitamente, que sua preocupação nunca foi a “saúde financeira da empresa” no abstrato, mas sim o controle do tempo do trabalhador. O tempo ocioso, para o capital, é tempo perdido. A resistência às férias em 1926 era uma resistência ao trabalhador dentro de sua casa; a resistência ao fim da escala 6×1 hoje é uma resistência ao trabalhador participando da vida familiar, estudando, ou simplesmente descansando para não adoecer.

3. O elo histórico: trabalho, vício e controle social

O que o memorial de 1926 revela, e que a luta atual confirma, é que setores da elite brasileira sempre enxergaram os direitos trabalhistas não como fruto da cidadania, mas como uma “concessão perigosa”. Na visão dos industriais do século XX, o lar do pobre é um “acampamento sem doçura”. Essa afirmação não é apenas preconceituosa; ela é funcional ao sistema produtivo. Se o lar é miserável, que o trabalhador permaneça na fábrica. Que a fábrica seja seu lar.

Hoje, o argumento contra a escala 6×1 segue a mesma linha, embora travestido de preocupação com o “bem-estar do trabalhador”. Alega-se que o trabalhador “não pode arcar com a redução de salário” (quando se esconde que a produtividade cresceu exponencialmente), ou que ele “prefere o dinheiro ao tempo livre”. Esses argumentos desconsideram a vasta literatura sobre burnout, ansiedade e a patologização do trabalho no capitalismo flexível. O pedido do trabalhador brasileiro não é por “ócio”, como queriam os patrões de 1926; é por vida.

As PECs e o PL que propõem o fim da escala 6×1 (Propostas de Emendas à Constituição 148/2015, 221/2019, 8/2025 e PL 1838/2026) visam exatamente garantir um direito elementar: o domingo livre, o descanso semanal que permita a convivência familiar e a saúde mental. Ao resistirem a isso, os setores conservadores do empresariado repetem, em essência, a frase do memorial de 1926: “O que fará um trabalhador braçal durante o seu dia de folga? Ele não tem o culto do lar...” A linguagem mudou, mas o preconceito de classe permanece intacto.

4. A negação da evolução: Por que a elite não evolui?

Se há mais de 100 anos a luta era para sair das 16 horas para as 8 horas diárias, e hoje ainda lutamos para sair da escala 6×1 (44 horas semanais) para as 40 ou 36 horas, é forçoso concluir que há um bloqueio estrutural no Brasil. Diferentemente da Europa, onde a redução da jornada foi sendo assimilada como ganho de produtividade e bem-estar social, no Brasil a redução do tempo de trabalho sempre foi encarada como uma ameaça à ordem.

A justificativa atual da elite possui três pilares, que são atualizações dos argumentos de 1926:O mito da produtividade: Alega-se que o brasileiro trabalha pouco. Os dados da OCDE mostram o oposto; o trabalhador brasileiro tem uma das jornadas mais longas do mundo, com produtividade estagnada. Na verdade, a jornada exaustiva gera fadiga e acidentes, reduzindo a eficiência.
O medo da competitividade: Dizem que a indústria nacional não resistiria à redução. Esquecem, convenientemente, que países com jornadas menores (Alemanha, Holanda) são infinitamente mais competitivos.
O ressentimento de classe: Subjacente ao discurso técnico, há o incômodo com a ideia de que o trabalhador possa ter mais tempo livre do que o patrão. O direito ao descanso é frequentemente percebido como um “privilégio” da elite, que não pode ser estendido à plebe.

5. O papel do movimento sindical e a necessidade histórica da vitória

Diante dessa imutabilidade patronal, a conclusão é inevitável: as conquistas trabalhistas jamais foram “doadas” ou fruto da benevolência do Estado; foram conquistadas na dor e na luta. As férias de 15 dias só existem porque houve resistência. O 13º salário, o repouso semanal remunerado, todos os direitos constantes da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) foram precedidos por greves, enfrentamentos e pela organização sindical.

O movimento sindical, como ensinam Sidney e Beatrice Webb (1897), na obra clássica Industrial Democracy ou Democracia Industrial, é a “união estável da classe para a defesa de seus interesses e implementação da melhoria das condições de vida”. Ele é uma invenção da humanidade para a paz social, pois nega a barbárie do laissez-faire. Hoje, ao lutar pelo fim da escala 6×1, os sindicatos e movimentos populares (como o “VAT” – Vida Além do Trabalho) exercem o mesmo papel civilizatório dos anarquistas de 1917.

A elite empresarial, ao empregar os mesmos argumentos de cem anos atrás, demonstra não apenas uma falha ética, mas também uma falha cognitiva. Ela se recusa a ver que o trabalhador descansado é mais produtivo, mais criativo e menos adoecido. Ela se recusa a ver que a redução da jornada é um instrumento de distribuição de renda e de modernização econômica.

Conclusão: a luta dos trabalhadores continua

A história está por testemunhar: as férias venceram as resistências de 1926. Hoje, a jornada de 40 horas e o fim da escala 6×1 vencerão a resistência de 2026. Mas essa vitória não virá por decreto, e sim pela pressão organizada da classe trabalhadora.

Ao compararmos o passado e o presente, fica evidente que a elite empresarial brasileira não evolui. Ela moderniza o discurso, contrata marqueteiros, mas mantém intacta a convicção de que o tempo do trabalhador não lhe pertence. O memorial de 1926 é o atestado de óbito da superioridade moral patronal.

Cabe aos trabalhadores e sindicalistas do século XXI, lembrarem sempre: a mesma insensibilidade que chamava o lar do pobre de “acampamento” é a que hoje chama a escala 6×1 de “necessária para a economia”. Portanto, a resposta deve ser a mesma daquela época: pressão, negociação coletiva, unidade de ação e até greve, pois existe a certeza de que a justiça social se faz com a redução da exploração do tempo.

Que o exemplo da luta pelas férias inspire os trabalhadores, suas organizações e os parlamentares que apoiam essa ideia. Se derrotarem a tese do “ócio perigoso” hoje, haverá uma sociedade mais justa. Amanhã, a luta será pela semana de 4 dias. Até que o trabalho sirva à vida, e não a vida ao trabalho.

(*) Antônio Augusto de Queiroz é jornalista, analista e consultor político, e mestre em Políticas Públicas e Governo pela FGV. Membro do Conselho de Desenvolvimento Social Sustentável da Presidência da República, Conselhão, é também membro do Conselho Superior da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (ABRIG). Foi diretor de Centro de Acompanhamento da Constituinte (UnB) e diretor de Documentação do Diap por 35 anos, e atualmente faz parte da Câmara de Reforma do Estado no âmbito do Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos (MGI). Sócio das empresas Consillium Soluções Institucionais e Governamentais e Diálogo Institucionais e Assessoria em Políticas Públicas, é autor de diversos livros e estudos sobre a dinâmica dos poderes, incluindo o livro “Movimento Sindical: passado, presente e futuro”.

[1] Ementa: Manda conceder, annualmente, 15 dias de férias aos empregados e operarios de estabelecimentos commerciaes, industriaes e bancarios, sem prejuizo de ordenado, vencimentos ou diarias e dá outras providencias

SINPROESEMMA realiza nesta sexta (15), em São Luís, 12° Encontro Estadual de Funcionários da Educação e defende "Piso, Carreira e Garantia de Direitos dos Profissionais Não Docentes

 


Nesta Se
xta Feira, 15 de maio, em São Luís, o SINPROESEMMA promove o 12º Encontro de Funcionários da Educação, reunindo profissionais de todas as regiões do estado no Hotel Santos Dumont, em São Luís.

Com o tema “PL 2531/2021: Piso, Carreira e Garantia de Direitos dos Profissionais Não Docentes”, o encontro será um espaço para fortalecer a luta da categoria, discutir avanços e alinhar estratégias diante dos desafios enfrentados pelos funcionários e funcionárias da educação do Maranhão.

A programação inclui debates sobre valorização profissional, carreira, direitos e a defesa da aprovação do PL 2531/2021, que trata do piso salarial nacional para os funcionários da educação, uma das principais pautas da categoria em nível nacional. Já a nível estadual, a discussão trará o Plano de Cargo, Carreira e Remuneração dos funcionários da Educação.

O 12º Encontro reafirma o compromisso do Sinproesemma com a organização e valorização dos profissionais não docentes, reconhecendo seu papel fundamental no funcionamento das escolas e na construção de uma educação pública de qualidade.

Secretária de Servidores Técnicos e de Apoio do Sinproesemma, Maria Militana,

Para a secretária de Servidores Técnicos e de Apoio do Sinproesemma, Maria Militana, o 12º Encontro é mais um momento essencial de escuta, organização e fortalecimento da nossa luta.

“Os funcionários da educação têm um papel fundamental dentro das escolas e precisam ser valorizados, com direitos garantidos, carreira estruturada e um piso salarial digno. Estamos construindo, juntos, esse caminho”, apontou Militana.

Presidente do Sinproesemma, Raimundo Oliveira

O presidente do Sinproesemma, Raimundo Oliveira, chama a atenção para a luta que o sindicato está travando em prol dos funcionários de escolas, tanto na implantação do Piso Salarial Nacional, quanto na estruturação da carreira desses profissionais no Estado do Maranhão.

“O 12º Encontro vai tratar de pautas essenciais para os funcionários de escolas, tanto a nível nacional como a nível estadual. Estamos mobilizados pela aprovação do Piso Nacional e pela valorização dos profissionais não docentes. Assim como na implantação do PCCR desses profissionais aqui no Maranhão, cobrando a realização de concurso público, o pró funcionário, entre outras. É com unidade, organização e luta que vamos avançar nessas pautas e assim, na garantia de direitos desses profissionais e no fortalecimento da educação pública do Brasil e do Maranhão”, avaliou Oliveira.

Fonte: ASCOM - SINPROESEMMA